23 agosto, 2005

Quando regressares à casa que hoje abandonas, apenas o seu espaço restará. Eu já terei partido, inspirado num outro amor que não o teu. Em cada murmúrio que desrespeitaste, eu senti-te dentro de mim, embora tu, ao abrigo de uma incompatibilidade inexistente e que só na tua cabeça ganhava sentido, vezes sem conta rejeitaste o corpo que te albergava em surdina. Por cada murmúrio que desrespeitaste, deveria castigar-te. Mas ao invés de o fazer, vou só esperar que regresses a casa, como se nunca me tivesses abandonado. Quando o fizeres, já terei partido. Restará apenas o espaço: e a saudade.
Excerto do blog "Cartas a Mónica", escrito por Paulo Ferreira

20 agosto, 2005

Os meus versos


Leste os meus versos? Leste? E adivinhaste
O encanto supremo que os ditou?
Acaso, quando os leste, imaginaste
Que era o teu esse olhar que os inspirou?

Adivinhaste? Eu não posso acreditar
Que adivinhasses, vês? E até, sorrindo,
Tu disseste para ti: "Por um olhar
Somente, embora fosse assim tão lindo,

Ficar amando um homem!... Que loucura!"
- Pois foi o teu olhar, a noite escura,
(Eu só a ti digo, e muito a medo...)

Que inspirou esses versos! Teu olhar
Que eu trago dentro d'alma a soluçar!
Ai não descubras nunca o meu segredo!


Florbela Espanca

(Foto de autor desconhecido)

18 agosto, 2005

"Cartas a Mónica" de Paulo Ferreira


Agora, a única coisa que tenho por certa é que, após esta carta, deixarei de pensar em ti. Pousarei a caneta sobre as folhas de papel e um silêncio imenso seguir-se-à. Já não sou eu o tipo que um dia te falou ao ouvido e quis fazer dos teus dias os seus. Tão pouco vou querer saber de noites em branco, esperando uma mensagem tua ou de noites em que simplesmente decidiste não aparecer. É a despedida sincera à minha sensibilidade por ti. Aqui, nestas páginas, repousarão as minhas memórias de ti, como flores que lavraste em meu peito. Vou calafetar o meu coração para que a tua presença não me invada esta noite, como todas as horas a haver deste momento adiante. E assim poderei adormecer descansado, sorrindo sempre antes de dormir. Enternecido com a existência que me deste. Adeus.


(Excerto do blog "Cartas a Mónica" de Paulo Ferreira - já publicado em livro)

11 agosto, 2005

Anoitecer em S. Pedro de Moel

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança.
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte.
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.


Alexandre O'Neill

Refugio


Foto de Pedro Cunha, retirada de http://olhares.com/refugio/foto177560.html

10 agosto, 2005

Lanço-te beijos, como quem atira flores ao chão debaixo de teus pés – fagulhas incandescentes que se perdem no céu negro da noite, onde exaustos repousamos. Debruço-me sobre ti, largo-te um beijo sobre o rosto, percorrendo com a minha respiraçao os teus olhos nariz boca pescoço. Nas notícias das oito, dizem que- Hoje vai haver uma chuva de estrelas.A comunidade científica e orgãos de comunicação social ignoram a verdadeira causa daquilo que chamam de fenómeno astronómico ímpar: não sabem que aquilo que os fará estar toda a noite em branco é apenas as tuas lágrimas que, evaporadas do teu rosto subiram aos céus, onde agora, em estado gososo, ameaçam riscar o céu de luz. Vais já dizer que sou eu o causador dessas lágrimas, já sei. Que bem sei em que frágil estado tu estás e que uma vez mais não tive atenção a isso. Eu vou calar-me e tu vais insistir neste ponto. Vais ensair o número do choro e eu vou sentir-me abatido.Mas em bom rigor, face a tudo, mesmo temendo que te lances num pranto, apetece-me ignorar o sal que te escorre pelas faces abaixo e, olhos nos olhos, ao invés de me culpar, sinto-me impelido a afirmar, quase com orgulho, que esta deve ser a primeira vez que me imputas as responsabilidades de algo belo. E isso, não sei muito bem porquê, faz-me sentir mais humano.
(Excerto do blog "Cartas a Mónica", escrito por Paulo Ferreira)

06 agosto, 2005

Semeio palavras e crescem frases como árvores, pés de feijão que quase chegam ao céu. Estamos os dois sentados frente a frente no chão frio da cozinha, porque ainda não tens móveis que sustentem o vazio da casa e sorrimos, alheios à felicidade que se apresenta perante nós – ridículo brinquedo que a medo manejamos, como uma partida de carnaval que nos surgiu para doravante lidarmos. Sinto a vida numa palavra tua, a eternidade em cada sorriso que me lanças. Eu respondo, lançando outras palavras que atracam em teu rosto. Um esgar que é um sorriso, um silêncio que digiro no pânico de um dia te perder. Chegaste há pouco da escola e, surpresa das surpresas, eu já te esperava. Quando chegaste, já tinha lavado a loiça do pequeno almoço(Saio sempre a correr, nem tempo tenho de lavar os dentes)e até me ensaiei a fazer o jantar, mas tostas mistas não são o teu prato favorito e por isso limitei-me a arredar dos sofás as revistas amontoadas e a varrer o chão com a velha vassoura que trouxeste ainda da primeira casa – do sotão que abandonaste de forma compulsiva, porque o senhorio encontrou quem lhe desse mais dinheiro pelo espaço. Chegas visivelmente cansada, com a tua maleta de médica que alberga os livros e os cadernos e o estojo e os testes – são aqueles os estetoscópios que utilizas para avaliar o sucesso dos alunos. Os mesmos alunos que roubam o tempo que é meu. Abandonaste a casa de banho com uma toalha pelos seios, o cabelo bonito e escorrido a beijar-te as costas molhadas e dizes que não posso abrir a água quente quando estás no banho. São banalidades como esta que me fazem sentir tão próximo de ti. Elevo-me acima do oitavo andar das Olaias e olho-te, perspectiva de quem sabe tudo da vida – vejo que és a mulher da minha vida: tenho tanta certeza disto como estar ali, oitavo andar, algures nas Olaias, um par de vizinhos no mesmo andar, dois elevadores que servem dez andares com 3 fogos cada um. É aquele o início do fim da minha vida. Ao teu lado, penso. Ao meu lado, tu, de toalha pelos seios, os cabelos escorridos e bonitos a beijarem-te as costas molhadas; tu pedindo-me que te penteie, que desta vez não invente, que me limite a passar com a escova de norte a sul; que não comece com ideias a querer fazer esculturas com os teus cabelos – mais logo vamos sair e não queres aparecer com o cabelo em alta tensão.Agora estamos sentados no chão frio da cozinha, porque ainda não tens móveis que sustentem o vazio da casa e sorrimos, alheios à felicidade que se apresenta perante nós: dali a um instante vamos sair e tu vais distanciar-te de mim. Num acidente que não prevemos, encontramos o teu irmão à entrada do cinema e tu tens pânico de dizeres quem eu sou, que significo eu(um fantasma)pois tudo aquilo é novo: desde o tempo em que todos te viam já casada e mãe de filhos de um tal de Lourenço, menino bem e rico do Porto, que ninguém te conhece qualquer namorado, muitos amigos sim, alguns amigos de amigos, mas nenhum namorado – isso nunca. Por isso, quando o teu irmão estende a mão na minha direcção e se apresenta, a tua pele assume um tom escarlate. Eu não me apercebo do que se passa ali, o teu irmão tão pouco. Por entre um silêncio incómodo e um olá tudo bem, dito no pânico de fugir dali, tu apressas-me para dentro da sala. Ainda nem começaram as apresentações, arrisco. Que não te estás a sentir bem, que te queres sentar – contrapões. O teu irmão a não compreender nada, eu muito menos – apenas esse teu estúpido pânico a assomar-se da tua cabeça preconceituosa(às vezes és tão pateta)e a impedir-me de poder ser gente, cidadão educado e com modos. O teu irmão ainda me convida a um café, ainda te tenta convencer que temos tempo. Sabes que temos, mas tu, na fobia de ele sequer saber o meu segundo nome, queres afastar-me dali. Sabes que ele vai perguntar quem sou eu, a idade, que faço, porque estou contigo. Mas tudo isso se apresenta como mistérios que não queres desvendar. Quando já estamos dentro do cinema, o quadro ainda a negro e a música de elevador a entoar, perguntei-te o porquê de tanta pressa, (somos as únicas pessoas na sala do cinema)que ainda tinhamos tempo e que poderíamos perfeitamente ir beber o café a que o teu irmão nos desafiou. Tu, visivelmente incomodada, mas sem que querer demonstrá-lo, optas por evadir-te à resposta e naquele momento, primeira vez que estamos frente a frente desde a altura em que estávamos os dois sentados no chão frio da cozinha, porque ainda não tinhas móveis que sustentassem o vazio da casa, sorris e iludes-me com a doce, quanto enganadora, razão de que não me queres partilhar com mais ninguém.
(Excerto do blog "Cartas a Mónica", escrito por Paulo Ferreira)

05 agosto, 2005

Não é a dor que quero entender (essa dói e pronto),
mas esse mistério de duas almas
que não se tocam no físico
e têm quase uma unidade na imortalidade.
Mas é isso que quero!
Você me ama?
Você quer construir uma vida comigo?
Tem desejo e sabor?
Eu sinto que você me quer,
precisa de mim,
mas será que eu estarei
ao nível de suas expectativas?
Eu queria uma certeza,
quantas vezes vislumbrei o que seria o derradeiro
e nem início era.
Quantas vezes esperei contar
e só senti se afastarem e eu ficar no chão...
Eu quero a certeza do absoluto.
A afirmação positiva.
Não quero os sonhos dos loucos,
nem a vontade dos sem-alma.
Eu quero a certeza da vida.
A afirmação do amor.
Não apenas um amor carnal e dirigido,
mas do sentimento verdadeiro
que se entranha na alma
e que não existam mágoas, que não dissolva.
Quero ter a certeza premonitória
que posso mergulhar, que não encontrarei uma pedra.
Quero a certeza da luz
que não se machuca nos espinhos,
penetra as sombras, não se inibe no mar...
Ou a certeza ou nada!
Duas almas que constróem uma estrada juntos,
não sabem como esse trajeto será,
mas apenas têm uma certeza quase sobre-humana
que têm que construir juntas.
São vidas independentes, mas harmônicas.
São autônomas, mas responsáveis.
Consistentes no que sentem
e têm a certeza do que realmente sentem.
Não é um "eu acho", "pode ser", "quem sabe",
"vamos tentar", "se der certo"...
É a certeza que só o verdadeiro amor tem.
Que não tem fronteiras, nem modos,
um amor que não espreita, não sucumbe,
nem apenas existe para satisfazer
nossos pequenos egoísmos.
(Carlos Eduardo Bronzoni)