Semeio palavras e crescem frases como árvores, pés de feijão que quase chegam ao céu. Estamos os dois sentados frente a frente no chão frio da cozinha, porque ainda não tens móveis que sustentem o vazio da casa e sorrimos, alheios à felicidade que se apresenta perante nós – ridículo brinquedo que a medo manejamos, como uma partida de carnaval que nos surgiu para doravante lidarmos. Sinto a vida numa palavra tua, a eternidade em cada sorriso que me lanças. Eu respondo, lançando outras palavras que atracam em teu rosto. Um esgar que é um sorriso, um silêncio que digiro no pânico de um dia te perder. Chegaste há pouco da escola e, surpresa das surpresas, eu já te esperava. Quando chegaste, já tinha lavado a loiça do pequeno almoço(Saio sempre a correr, nem tempo tenho de lavar os dentes)e até me ensaiei a fazer o jantar, mas tostas mistas não são o teu prato favorito e por isso limitei-me a arredar dos sofás as revistas amontoadas e a varrer o chão com a velha vassoura que trouxeste ainda da primeira casa – do sotão que abandonaste de forma compulsiva, porque o senhorio encontrou quem lhe desse mais dinheiro pelo espaço. Chegas visivelmente cansada, com a tua maleta de médica que alberga os livros e os cadernos e o estojo e os testes – são aqueles os estetoscópios que utilizas para avaliar o sucesso dos alunos. Os mesmos alunos que roubam o tempo que é meu. Abandonaste a casa de banho com uma toalha pelos seios, o cabelo bonito e escorrido a beijar-te as costas molhadas e dizes que não posso abrir a água quente quando estás no banho. São banalidades como esta que me fazem sentir tão próximo de ti. Elevo-me acima do oitavo andar das Olaias e olho-te, perspectiva de quem sabe tudo da vida – vejo que és a mulher da minha vida: tenho tanta certeza disto como estar ali, oitavo andar, algures nas Olaias, um par de vizinhos no mesmo andar, dois elevadores que servem dez andares com 3 fogos cada um. É aquele o início do fim da minha vida. Ao teu lado, penso. Ao meu lado, tu, de toalha pelos seios, os cabelos escorridos e bonitos a beijarem-te as costas molhadas; tu pedindo-me que te penteie, que desta vez não invente, que me limite a passar com a escova de norte a sul; que não comece com ideias a querer fazer esculturas com os teus cabelos – mais logo vamos sair e não queres aparecer com o cabelo em alta tensão.Agora estamos sentados no chão frio da cozinha, porque ainda não tens móveis que sustentem o vazio da casa e sorrimos, alheios à felicidade que se apresenta perante nós: dali a um instante vamos sair e tu vais distanciar-te de mim. Num acidente que não prevemos, encontramos o teu irmão à entrada do cinema e tu tens pânico de dizeres quem eu sou, que significo eu(um fantasma)pois tudo aquilo é novo: desde o tempo em que todos te viam já casada e mãe de filhos de um tal de Lourenço, menino bem e rico do Porto, que ninguém te conhece qualquer namorado, muitos amigos sim, alguns amigos de amigos, mas nenhum namorado – isso nunca. Por isso, quando o teu irmão estende a mão na minha direcção e se apresenta, a tua pele assume um tom escarlate. Eu não me apercebo do que se passa ali, o teu irmão tão pouco. Por entre um silêncio incómodo e um olá tudo bem, dito no pânico de fugir dali, tu apressas-me para dentro da sala. Ainda nem começaram as apresentações, arrisco. Que não te estás a sentir bem, que te queres sentar – contrapões. O teu irmão a não compreender nada, eu muito menos – apenas esse teu estúpido pânico a assomar-se da tua cabeça preconceituosa(às vezes és tão pateta)e a impedir-me de poder ser gente, cidadão educado e com modos. O teu irmão ainda me convida a um café, ainda te tenta convencer que temos tempo. Sabes que temos, mas tu, na fobia de ele sequer saber o meu segundo nome, queres afastar-me dali. Sabes que ele vai perguntar quem sou eu, a idade, que faço, porque estou contigo. Mas tudo isso se apresenta como mistérios que não queres desvendar. Quando já estamos dentro do cinema, o quadro ainda a negro e a música de elevador a entoar, perguntei-te o porquê de tanta pressa, (somos as únicas pessoas na sala do cinema)que ainda tinhamos tempo e que poderíamos perfeitamente ir beber o café a que o teu irmão nos desafiou. Tu, visivelmente incomodada, mas sem que querer demonstrá-lo, optas por evadir-te à resposta e naquele momento, primeira vez que estamos frente a frente desde a altura em que estávamos os dois sentados no chão frio da cozinha, porque ainda não tinhas móveis que sustentassem o vazio da casa, sorris e iludes-me com a doce, quanto enganadora, razão de que não me queres partilhar com mais ninguém.
(Excerto do blog "Cartas a Mónica", escrito por Paulo Ferreira)


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